Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos agora a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola.

Amadeo de Souza-Cardoso (O Dia, 4 de Dezembro de 1916)

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Máscara de Aço Contra Abismo Azul (1989), Paulo Rocha


entre a cidade e a lavoura

um homem que deus criou
por causa da sua amiga
a sua mulher matou

andavam os dois na horta
começaram a ralhar
com a enxada que levava
a casa a foi matar

adeus minha querida esposa
já não me vale o chorar
quando te dei com a enxada
não era para te matar

tanto chorava gemia
que até metia piedade
ficou-lhe uma criancinha
só com dois anos de idade

rapazes da minha terra
não tenhas pena de mim
tende pena de uma rosa
que falta neste jardim

rapazes da minha terra
não tenhas pena de mim
tende pena de uma rosa
que falta neste jardim

– Crime, abismo azul, remorso físico. Ofereço a fotografia deste quadro à sensibilidade poética de Teixeira de Pascoaes.


EDGAR PERA - ABISMO AZUL
Crime Abismo Azul Remorso Físico (2009), Edgar Pêra

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Um bom sítio para plantar

E Agora? Lembra-me / What Now? Remind Me (2013), Joaquim Pinto

Joaquim, senhor de uma sensibilidade suprema de composição, acende fogueiras e consagra uma época venatória; o seu regresso é ígneo, inevitável, infeccioso, emergente, drástico, lúcido. Reclama a sagração da memória, mais do que a sua conservação, onde o sangue é o motivo e a oportunidade tanto da morte quanto da eternidade. É parcela desse tempo infinito, legado, procissão, cálice sacrificial que comunga da modalidade fatal de uma anomalia metafísica. Disseca, investiga e ensaia um antídoto: “E Agora? Lembra-me”.


INTRO:
Franz Schubert – Quinteto para Piano, Violino, Viola, Violoncelo e Contrabaixo em lá maior, “Die Forelle” (A Truta); Andante (Emil Gilels – piano, Norbert Brainin – violino, Peter Schidlof – viola, Martin Lovett – violoncelo, Rainer Zepperitz – contrabaixo)
01: Antonio Vivaldi – Concerto No. 2 em sol menor, op. 8, RV 315, “L’estate” (Verão), I. Allegro non molto (exc.)
02: excerto filme
03: Jacques Ibert – Ariette para guitarra solo (Helenus de Rijke) (exc.)
04: WhoMadeWho – The Plot (Radio Version)
05: Calexico – Whipping the Horse’s Eyes
06: Carl Stalling – Marching Pink Elephants
07: Carl Stalling – Pappy’s Puppy
08: Jacques Ibert – Carignane para fagote e piano (Peter Gaasterland – fagote, Sepp Grotenhuis – piano)
09: Ludwig van Beethoven – Sonata Nº 9 em lá maior, “Kreutzer”, Op. 47; Adagio Sostenuto – Presto (Alexander Melnikov & Isabelle Faust, Philarmonia de Praga)
10: excerto filme
11: Amanda Lear – Blood and Honey (versão de 1976)
12: Wes Montgomery – D-Natural Blues (Wes Montgomery – guitarra, Tommy Flanagan – piano, Percy Heath – contrabaixo, Albert Heath – bateria)
13: excerto filme
14:
Jacques Ibert – Ghirlarzana para violoncelo solo (Marien van Staalen – violoncelo)
15: excerto filme
16: WhoMadeWho – The Plot (Nôze Remix)

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Incapaz de amar de todas as formas

Para um festival que se quer sério no seu principal objectivo, pela “promoção e mostra do cinema português”, o Caminhos do Cinema Português encontra logo aí o seu principal problema de expressão que depois se arrasta para tantos outros. Porque uma coisa é definir o cinema que é feito “em Portugal”, outra coisa é o dito “cinema português”. E tudo isto causa o maior dos atritos quando se quer tentar tirar algum sentido de uma semana de “produção nacional” (valha-nos esta publicidade de telenovela pós-telejornal que põe qualquer português orgulhoso). Segue-se então a descrição livre da sessão da noite no sétimo dos nove dias da vigésima edição de mui honrada festa.


Às 22h, abrem-se as portas do anfiteatro do TAGV para fazer entrar cerca de 60% do público, perto de vinte pessoas. Depois de dez minutos de luz acesa e de espectadores entretidos com folhetos, alguém dispara “faltam os convidados”, explicação possível do atraso que me deixou logo embaraçado: não sabia que me cabia o desconfortável papel de elemento infiltrado numa festa da qual não me tinha sido entregue o convite. Eis senão quando estaca frente ao cineteatro a carruagem um autocarro da Associação Académica de Coimbra que transporta a parada de membros da equipa organizadora acompanhados por um riquíssimo painel de júris que tranquilamente continua a conversa pós-jantar, ou não estaríamos nós no meio de personagens presumivelmente ilustres desta grande e luminosa indústria que se dá pelo nome de “cinema português”.

Feitas as honras da casa, estavam então programadas duas curtas e uma longa metragem, cujo critério de alinhamento, que tem como base uma esquematização temática, se anuncia com o mote romanceado “Amar de Todas as Formas”. Qualquer um dos motes deste programa – cada um teria depois o respectivo painel de discussão associado – estava destinado a conquistar o coração do espectador, seja pelo tom melodramático (veja-se “Preconceito e Cegueira Moral em Portugal”), seja pela arritmia que poderia eventualmente provocar, tal seria a incredulidade (a aposta no bom velho “Humor em Português” e no fetiche adolescente sem fim “Terror e fantástico português”). Relativamente à primeira curta intitulada “Bodas de Papel”, podemos confirmar que o dito “terror português” está morto e recomenda-se. Recomendação direccionada aos amantes de série B com queda para anúncios de pasta de dentes. Segue-se “Coro dos Amantes”, filme que investe numa cenografia clara: divisão de ecrã em dois, homem e mulher, juntos mas separados, em acordo ou em desacordo. Premissa que mantém até ao fim, acabando por nunca correr riscos. E talvez por manter a coerência automática de um ímpeto teatral, o filme esgota-se em sim mesmo, balançando entre a previsibilidade e o uso de fórmulas gastas. E, por falar em coerência, também o público manteve o seu entusiasmo face à projecção, batendo palmas para o leitor de dvds.

Chega a hora do filme da noite, “A Vida Invisível” de Vítor Gonçalves. O primeiro do realizador depois de um interregno de 27 anos e uma continuidade deixada em aberto após “Uma Rapariga no Verão”. O respirar do filme não poderia ser mais distinto face ao que ali o antecedeu, um mergulho de cabeça na escuridão, no silêncio, nas personagens crípticas de fala curta. Dentro de um negrume incómodo, tudo aponta que veio para ficar o tempo que for preciso, com as poucas palavras que são suficientes. Tudo aquilo de que não vou falar agora apresenta sintomas de uma inquietação em conflito permanente. E la nave va.

Entretanto, metade do público, incapaz de “amar de todas as formas”, não resistiu ao entediado bocejo após quinze minutos (talvez a duração das curtas tenha criado raízes na concentração), saindo um a um, minuto a minuto. E portanto, quando sai um português cansado ou quiçá revoltado, sai de imediato uma legião identificada por tal tédio cerebral generalizado. O cavalheiro ao meu lado queixa-se de que “o filme é muito parado” (explico-lhe calmamente, com o auxílio de conceitos científicos, que parados estamos nós, tanto eu como ele). Dentro desta grande fatia de espectadores, encontram-se as individualidades do magnânimo júri que provavelmente, não vendo razões para atribuir o que quer que seja a Vítor Gonçalves, decidiu ignorar o desfecho do malfadado “filme parado” e retornar mais cedo aos cocktails do andar de cima. Nos créditos finais, palmas tímidas perante o último plano, um fade out branco (esperança, precisa-se).

caminhos-chouriços

Sendo assim, senhores, não sei o que é o “cinema português” e tenho dúvidas se alguma vez existiu tal coisa (e tenho antes de mim César Monteiro e Pedro Costa a questionar a mesma existência). Não sei se o que faz um filme português é o limite de um território ou uma língua única, uma identidade comum, os problemas de evolução e crescimento de um país, os costumes a que estamos acostumados. Parece-me que é mais uma desculpa inventada para celebrar os sucessos dos que vencem e deixar na obscuridade aqueles que já lá estavam. Esta natureza de competição parece fazer parte da criatura com nome dúbio. Que factor é que decide se um filme é mais “português” do que o outro e que raio tem tudo isto que ver com o cinema propriamente dito?

Direi então que há demasiada certeza em categorizar aquilo de que não se tem a menor ideia. Neste festival, faz-se tanto com tão pouco na cabeça! Festeja-se a existência dos nomes anunciados mas não se questiona o que estes mostram, os desafios que podem, ou não, deixar aos espectadores. Face a esta cegueira, os filmes (assim, sem mais) sobrevivem quando vistos sem o exagero promocional. Vê-los é o único remédio, para afastar a poeira do glamour provinciano, para enterrar a idiotice subjacente no que o cinema (e a vida, claramente) tem de pior: a unanimidade.


Não há cinema português

Tabu (2012), Miguel Gomes
Juventude Em Marcha (2006), Pedro Costa
A Comédia de Deus (1995), João César Monteiro
Jaime (1974), António Reis
Mudar de Vida (1966), Paulo Rocha

[This upload has reached 3rd in the Soundtrack chart and 15th in the Experimental chart.]

Esta é uma emissão piloto na versão original com mais de dois anos, num leve Mau Olhado ao que temos de mais próximo. Surripiando desde logo João César Monteiro, não há cinema português e nunca houve cinema português: nós não temos nenhuma tradição cinematográfica, não temos nenhum passado cinematográfico e estamos numa situação de ter que inventar o cinema a partir do nada.

A identidade portuguesa no cinema tem uma característica global em todos os filmes: o mesmo mundo claustrofóbico e de profunda tristeza. Entre a paralização actual do investimento na produção nacional e a celebração à escala internacional, os novos cineastas portugueses são do mundo – é irreversível, não há lei ou bilheteira que se atravesse no caminho.

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INTRO: Franz Schubert – Trio para Piano e Cordas em mi bemol maior, op. 100, segundo andamento
01: excerto de “Tabu” de Miguel Gomes (música tribal)
02: Joana Sá – Variações pindéricas sobre a insensatez, com excerto inicial de “Tabu”, gravação de Miguel Gomes
03: Les Surfs – Tú Serás Mi Baby, com excerto de “Tabu”, carta de Aurora a Gianluca Ventura (gravação de Laura Soveral)
04: Ramones – Baby, I love you (End of the Century)
05: Quinteto Angola – Kupassiala Kua Aba (VA Angola 60′s)
06: excerto de “Juventude em Marcha”, com Ventura a ler “Cem Mil Cigarros”
07: Young Marble Giants – Colossal Youth (Colossal Youth)
08: Wire – Lowdown (Pink Flag)
09: excerto de “A Comédia de Deus”, com João César Monteiro a ler “Circe”
10: J. Haydn – Missa Sanctae Caeciliae, Agnus Dei (David Thomas, Academy of Ancient Music)
11: Margaret Price – Mild und liese wie es lächelt (Richard Wagner, Tristan und Isolde)
12: Louis Armstrong and His Orchestra – St. James Infirmary Blues (Louis Armstrong)
13: Karlheinz Stockhausen – Telemusik (number 20)
14: excerto do filme “Jaime”
15: excerto do filme “Mudar de Vida”, com Geraldo d’El Rey e Isabel Ruth
16: Carlos Paredes – Mudar de Vida (Música de Fundo) (Movimento Perpétuo)
17: Norberto Lobo – Mudar de Vida (Mudar de Bina)