FESTIVAL CAMINHOS DO CINEMA PORTUGUÊS


Incapaz de amar de todas as formas

Para um festival que se quer sério no seu principal objectivo, pela “promoção e mostra do cinema português”, o Caminhos do Cinema Português encontra logo aí o seu principal problema de expressão que depois se arrasta para tantos outros. Porque uma coisa é definir o cinema que é feito “em Portugal”, outra coisa é o dito “cinema português”. E tudo isto causa o maior dos atritos quando se quer tentar tirar algum sentido de uma semana de “produção nacional” (valha-nos esta publicidade de telenovela pós-telejornal que põe qualquer português orgulhoso). Segue-se então a descrição livre da sessão da noite no sétimo dos nove dias da vigésima edição de mui honrada festa.


Às 22h, abrem-se as portas do anfiteatro do TAGV para fazer entrar cerca de 60% do público, perto de vinte pessoas. Depois de dez minutos de luz acesa e de espectadores entretidos com folhetos, alguém dispara “faltam os convidados”, explicação possível do atraso que me deixou logo embaraçado: não sabia que me cabia o desconfortável papel de elemento infiltrado numa festa da qual não me tinha sido entregue o convite. Eis senão quando estaca frente ao cineteatro a carruagem um autocarro da Associação Académica de Coimbra que transporta a parada de membros da equipa organizadora acompanhados por um riquíssimo painel de júris que tranquilamente continua a conversa pós-jantar, ou não estaríamos nós no meio de personagens presumivelmente ilustres desta grande e luminosa indústria que se dá pelo nome de “cinema português”.

Feitas as honras da casa, estavam então programadas duas curtas e uma longa metragem, cujo critério de alinhamento, que tem como base uma esquematização temática, se anuncia com o mote romanceado “Amar de Todas as Formas”. Qualquer um dos motes deste programa – cada um teria depois o respectivo painel de discussão associado – estava destinado a conquistar o coração do espectador, seja pelo tom melodramático (veja-se “Preconceito e Cegueira Moral em Portugal”), seja pela arritmia que poderia eventualmente provocar, tal seria a incredulidade (a aposta no bom velho “Humor em Português” e no fetiche adolescente sem fim “Terror e fantástico português”). Relativamente à primeira curta intitulada “Bodas de Papel”, podemos confirmar que o dito “terror português” está morto e recomenda-se. Recomendação direccionada aos amantes de série B com queda para anúncios de pasta de dentes. Segue-se “Coro dos Amantes”, filme que investe numa cenografia clara: divisão de ecrã em dois, homem e mulher, juntos mas separados, em acordo ou em desacordo. Premissa que mantém até ao fim, acabando por nunca correr riscos. E talvez por manter a coerência automática de um ímpeto teatral, o filme esgota-se em sim mesmo, balançando entre a previsibilidade e o uso de fórmulas gastas. E, por falar em coerência, também o público manteve o seu entusiasmo face à projecção, batendo palmas para o leitor de dvds.

Chega a hora do filme da noite, “A Vida Invisível” de Vítor Gonçalves. O primeiro do realizador depois de um interregno de 27 anos e uma continuidade deixada em aberto após “Uma Rapariga no Verão”. O respirar do filme não poderia ser mais distinto face ao que ali o antecedeu, um mergulho de cabeça na escuridão, no silêncio, nas personagens crípticas de fala curta. Dentro de um negrume incómodo, tudo aponta que veio para ficar o tempo que for preciso, com as poucas palavras que são suficientes. Tudo aquilo de que não vou falar agora apresenta sintomas de uma inquietação em conflito permanente. E la nave va.

Entretanto, metade do público, incapaz de “amar de todas as formas”, não resistiu ao entediado bocejo após quinze minutos (talvez a duração das curtas tenha criado raízes na concentração), saindo um a um, minuto a minuto. E portanto, quando sai um português cansado ou quiçá revoltado, sai de imediato uma legião identificada por tal tédio cerebral generalizado. O cavalheiro ao meu lado queixa-se de que “o filme é muito parado” (explico-lhe calmamente, com o auxílio de conceitos científicos, que parados estamos nós, tanto eu como ele). Dentro desta grande fatia de espectadores, encontram-se as individualidades do magnânimo júri que provavelmente, não vendo razões para atribuir o que quer que seja a Vítor Gonçalves, decidiu ignorar o desfecho do malfadado “filme parado” e retornar mais cedo aos cocktails do andar de cima. Nos créditos finais, palmas tímidas perante o último plano, um fade out branco (esperança, precisa-se).

caminhos-chouriços

Sendo assim, senhores, não sei o que é o “cinema português” e tenho dúvidas se alguma vez existiu tal coisa (e tenho antes de mim César Monteiro e Pedro Costa a questionar a mesma existência). Não sei se o que faz um filme português é o limite de um território ou uma língua única, uma identidade comum, os problemas de evolução e crescimento de um país, os costumes a que estamos acostumados. Parece-me que é mais uma desculpa inventada para celebrar os sucessos dos que vencem e deixar na obscuridade aqueles que já lá estavam. Esta natureza de competição parece fazer parte da criatura com nome dúbio. Que factor é que decide se um filme é mais “português” do que o outro e que raio tem tudo isto que ver com o cinema propriamente dito?

Direi então que há demasiada certeza em categorizar aquilo de que não se tem a menor ideia. Neste festival, faz-se tanto com tão pouco na cabeça! Festeja-se a existência dos nomes anunciados mas não se questiona o que estes mostram, os desafios que podem, ou não, deixar aos espectadores. Face a esta cegueira, os filmes (assim, sem mais) sobrevivem quando vistos sem o exagero promocional. Vê-los é o único remédio, para afastar a poeira do glamour provinciano, para enterrar a idiotice subjacente no que o cinema (e a vida, claramente) tem de pior: a unanimidade.

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